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terça-feira, 9 de julho de 2019

Nem só de bons negócios vive um comprador.


Em um curso que fiz, onde havia lá compradores e negociadores de calibre bem maior que o meu, um dos professores, com mais de 50 anos em compras, foi questionado por um dos alunos, qual negociação ele sentiu que não teve sucesso. Ele de primeira respondeu que a negociação um tipo de serviço na área de saúde.
Questionado o porque, ele comentou que, sempre que passou por este tipo de negociação, vinham reajustes de 40, 50% alegando altos custos na operação etc, e que, depois de uma, duas, três, quatro rodadas, o percentual acabava caindo para 10, 8, 6%. Daí você pode me questionar como não foi uma boa negociação. Eu explico. Os 10, 8 ou 6% já estavam prontos, e a transparência da negociação não existiu em nenhum momento, em especial quando chegou na mesa uma carta de reajuste de 40 ou 50%. Ou seja, se colar colou. Ainda, nos “baixos” percentuais de reajuste, são trazidos números que não são auditáveis, ou seja, é o tipo de coisa que não tem quem conte, quem audite e etc. Este tipo de negóciação eu conheço fora da sala de aula quem viveu, e me confirmaram que de fato é assim mesmo que acontece.
Mas falando de negociações que eu conduzi e que eu sim vi de perto alguns esquemas acontecendo – cartel - e que quando dei estes exemplos neste curso, não houve quem não tivesse passado pelo mesmo problema.
O funcionamento é simples: temos em um exemplo, três fornecedores, o A, o B, e o C. Quem é meu atual fornecedor, tanto de fretado quanto de transporte de valores é o C. Eu abro um RFQ no mercado para a contratação do serviço, e o fornecedor hoje me cobra R$ 10,00 (base line).
O fornecedor C, tem contato com o A e o B, e acerta com eles o seguinte: eu cobro R$ 10,00 hoje. Vou subir meu preço para R$ 15,00, vocês cobram qualquer valor acima disso, eu a gente faz o mesmo com cotações de vocês, ou seja, o C sobe o preço dele, e acerta com o A e B que não entrará nas praças deles, agindo da mesma forma que eles agiram.
Recentemente, vimos  que o Cade condenou 11 empresas e 42 pessoas por formação de cartel em licitações de trens e metrôs. Na realidade se o Cade apertar o cerco ele vai condenar muitas empresas de muitos setores e muitas pessoas também.
Há como fugir deste tipo de situação? Há. Sempre é possível? Infelizmente não.
Na contratação de um serviço com forte ameaça de cartel como já explicado o fluxo da operação, decidi abrir o leque no mercado, buscando por empresas de menor porte. Sim, menor porte. Contratar uma empresa de menor porte é uma saida pelo seguinte: esta empresa busca alcançar uma fatia de mercado que ainda não tem. O fato dela ser de pequeno porte, não isenta ela de passar por vistorias, visitas técnicas, homologação cadastral, benchmark com clientes, visita a clientes e etc.
Este tipo de abordagem dá trabalho, é operacional, e principalmente, requer que você saia da sua mesa e vá a campo. Desconheço outra saida para fugir do cartel.
Em tempo, em especial para quem está entrando em compras agora, se na sua cadeira no escritório você está sucetível à ameaça da propina, no campo estas chances aumentam. Para todos que já trabalharam comigo ou ainda trabalham, eu tenho o costume de falar: “-Faça coisas que você terá como olhar nos olhos de seus pais e dizer que fez...”
A ética na negociação é parte do processo para o sucesso nas negociações, em especial, para quebrar os cartéis que possam surgir no seu caminho.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Cuidado! O que você diz pode ter um peso muito maior do que imagina...

Eu pensei muito no assunto, não compartilhei nada em redes sociais até então porque eu não achava que poderia contribuir – sim, penso nas coisas que escrevo mesmo sem ser um digital influencer – até que aconteceu uma coisa que me fez mudar de ideia.
Não há quem não saiba de um caso extremamente infeliz da morte de um cachorro em uma loja de uma rede de hipermercados. Certo?
Eu, como profissional de compras, participo de alguns grupos de discussão e ajuda no seguimento e me deparei com a seguinte pergunta no grupo com mais de 200 compradores (vou colocar na íntegra a pergunta e o desenrolar para depois concluir). Óbvio que omitirei nomes:
“-Pessoal, estou abrindo um BID de facilities, segurança, manut. predial e ar condicionado. Conhecem quem atue nessas 3  frentes? Em paralelo, sabem informar quem é o fornecedor de vigilância do (loja) de Osasco?”
Um dos participantes do grupo respondeu qual seria a empresa, e rapidamente, houve a seguinte resposta:
“-Esse é bom saber para nunca contratar.”
Uma terceira pessoa:
“-Foi nesse (loja) que o segurança matou o cachorro, não foi?”
Uma quarta pessoa:
“-(nome), pode esclarecer se indicou a (empresa)  para o BID, ou se disse que são o fornecedor do Carrefour? Ficou um pouco confuso rs”
A pessoa que indicou: “-Indiquei para o Bid”
Eu já pensei: olha o tamanho da irresponsabilidade. Em um grupo com mais de 200 compradores, pedem uma indicação, o fazem e daí já associam a um problema ocorrido e começam a falar mal da empresa QUE NADA TEVE A VER COM O ASSUNTO.
Por isso eu falo que, o peso do que escrevemos é muito grande. Mesmo que não sejamos digital influencers.
Pelo menos depois houve um pedido formal no grupo de desculpas por quem acusou errado. Mas mesmo assim, eu ainda estava indignado com a falta de responsabilidade daquelas pessoas em enxergarem o meio que estavam – um grupo profissional com mais de 300 compradores – e fazer uma acusação sem saber quem tinha feito o erro e etc.
Daí, quando eu já estava quase pensando em escrever, uma colega postou:
“-Pessoal. Acho que foi uma ação isolada de um funcionário. E devemos acompanhar como a empresa se portara diante do fato. Mas a (empresa acusada erroneamente) tem mais de 50 ano de mercado. E uma reputação estável. E importante analisar todos os fatos “.
Enfim, em resumo, temos que ter muito cuidado com aquilo que lemos, e principalmente, com o que escrevemos ou falamos.
Tenham certeza, achei uma barbárie o que aconteceu. Adoro animais e acho que nada justifica o que foi feito. Mas hoje, com a informação fácil como está, você em um grupo de compradores profissionais (em tese), julgar uma empresa que nem sabe se foi ela quem fez, é um erro enorme, além de uma baita gafe entre mais de 200 profissionais.
Leiam, tirem por dia pelo menos 15 minutos para ler de tudo um pouco. Algo lhe intrigou, pesquise, busque fontes. Um amigo meu comenta que as redes sociais são uma grande mesa de boteco, onde você chega, e coloca suas opiniões e não está nem aí. O erro é que, esquecem que a diferença entre a mesa de boteco de verdade e a rede social, é o alcance do que você fala ou faz.
Márcio Ranhel
Administrador
Profissional de compras há 15 anos.